Biografia
em que me permito, por pura diversão, discorrer sobre algumas coisas que fiz e vivi
durante a minha formação

Nasci em Lisboa em 1991, numa casa em que a música não só não era fundamental, como a que se ouvia não era sequer música clássica. Se por um lado fui encorajado em boas leituras, no campo musical fui deixado à minha própria curiosidade.

Foi algures antes dos dez anos que entrou um piano vertical em casa, no qual tive as primeiras lições, mas nem por isso me inclinei mais para a música. Fotografar, desenhar, escrever, tudo me entusiasmava. Claro que isto só a mim interessa, mas divirto-me a constatar que em velhos cadernos de desenhos começam a surgir cada vez mais referências à música por volta dos meus 13-14 anos.

Retratos de Ravel e Bartók, 2004 e 2005

Se a música se torna uma obsessão deixo então de desenhar, pois claro, e por isso o último caderno é deixado incompleto. Suponho que por essa altura já passava mais tempo a tocar e procurar partituras do que qualquer outra coisa.

Formação, parte I - Portugal

Setembro de 2009: eis-me aluno de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Aguentei cerca de um mês, e saio sem remorsos mas com uma profunda impressão causada pelo professor de Semiótica, José Augusto Mourão (1947-2011), frade dominicano e já então doente do cancro que havia de o levar pouco depois.

Outubro de 2009: inscrevo-me enquanto aluno externo em todas as cadeiras de primeiro ano de Ciências Musicais (o período de transferências já estava fechado) e assim fiz o meu primeiro ano de licenciatura. Foram anos de aproximação e reflexão sobre a matéria musical e de dúvidas sobre se devia ou não tentar aquilo que na verdade mais apetecia para o meu futuro.

Quando cheguei ao terceiro ano do curso já tinha despachado praticamente todas as cadeiras, e fui em 2011-12 passar um semestre em Bolonha ao abrigo do programa Erasmus. De tal forma estava folgada a minha licenciatura, que me dei ao luxo de apenas precisar de estar matriculado em duas cadeiras todo o semestre: filosofia da música, um valente “cadeirão” de 12 créditos que à chegada a Portugal me valeu por duas disciplinas, e história contemporânea.

A viver num apartamento solarengo no primeiro andar do nº3 da Via Zamboni, da varanda via diariamente as velhas torres medievais, já presentes na Divina Comédia, à distância de uns passos apenas.

No sentido oposto, as faculdades, a Piazza Verdi, o Teatro Comunale, a Via del Guasto com os seus muros cobertos de anúncios de troca e venda de bicicletas. 

Momento de chegada à Via Zamboni nº3 

De dia uma delícia, de noite o equivalente a viver no Bairro Alto

Nesta cidade se deu aquele que foi provavelmente o único momento na minha vida de um brilho académico tal, que saí a ponderar uma carreira em musicografia: Na prova oral de filosofia da música, numa sala barroca revestida a mármores e frescos, fui chamado a subir ao púlpito para ser inquirido sobre teoria estética a partir do magnífico compêndio de Enrico Fubini - que ainda hoje em dia consulto, porque a história da música é na verdade a história da estética - e depois de ter começado por sugerir uma alteração na questão que me fora colocada, discorri livremente durante uns três ou quatro minutos perante a plateia de alunos, e quando acabei o professor, Maurizio Giani, já estava a anotar o meu libretto.

Levantou os olhos, passou-mo, e disse:

- Basta così.

Perguntei se era possível o meu exame ter acabado tão brevemente, tendo reparado que os outros se demoravam vinte ou mais minutos. Respondeu:

- Può bastare così. 

Olhei a caderneta e vi a sua caligrafia: 30 e lode. Fui de volta ao meu lugar para arrumar os cadernos na mochila e uma aluna perguntou-me de onde era. Por alguma razão respondi que era dinamarquês. Levantei-me, saí da sala e fui para casa. Pelo caminho começou a cair a primeira neve do ano, e a cidade ficou ainda mais escura e medieval.

O outro exame, de história contemporânea, não foi menos memorável. 

Bolonha tem a universidade mais antiga do mundo, onde a lista de académicos incluí alguns dos maiores vultos da história da humanidade: Dante, Petrarca, Tasso, vários papas, o meu querido Goldoni, all the way até Pasolini e Umberto Eco, que então ainda era director da minha faculdade e de vez em quando oferecia à comunidade académica uma lectio magistralis sobre tema à sua escolha. Assisti a uma sobre ética na aula magna da universidade, cheia como um ovo, com alunos sentados por todos os degraus e cadeiras possíveis, e uma centena em pé contra a parede.

Dizia então que o exame de história contemporânea foi memorável. Imagine-se a importância que tem o departamento de história na universidade com mais história no mundo inteiro. Sobre isto, dá-se ainda o caso de história contemporânea ser um dos pratos fortes da historiografia bolonhesa, com os acontecimentos marcantes dos anni di piombo e as revoltas estudantis que aí ocorreram nos anos 1970-80. Fui então para a faculdade de história fazer o exame e deparei-me com o seguinte sistema, nunca antes visto: uma corrente contínua de alunos sentados pelo chão ia desde a porta da sala de exame até à loggia interior do edifício, percorrendo dezenas e dezenas de metros de corredores do velho palazzo. Assim que um novo aluno era chamado a depor, o nome era anunciado de boca em boca até chegar à pessoa em questão, que então se levantava e ia fazer o seu exame.

Com os nomes italianos, pode calcular-se que era um jogo seguro, mas com um aluno chamado Martim Alves Andresen de Sousa Tavares, a passagem do testemunho oral foi como o jogo do telefone estragado, e quando o meu próprio nome passou por mim, vinha já tão mutilado que nem mereceu a minha atenção. Veio então, passados uns dois minutos, um outro aviso de que o aluno com um nome impronunciável se devia apresentar imediatamente a exame. Aqui já levantei os olhos e por precaução pensei que talvez fosse melhor certificar-me de que não era eu. Quando pus o nariz dentro da sala em que estava a professora, acabava de ser chumbado por falta de comparência, e o próximo aluno já tinha sido chamado. 

Dois livros que valeram duas cadeiras e dezoito créditos

Consegui explicar o mal-entendido e foi-me dada a oportunidade de fazer o exame, que foi uma digressão a partir do livro de Ian Kershaw, em italiano Hitler e l’enigma del consenso.

Muito gostam os italianos de fazer exames a partir de livros específicos, pensei.

O meu transcript of records de Bolonha é o único pedaço de papel académico de que nunca me quis desfazer

Para além das trabalhosas duas cadeiras que me ocupavam umas largas e abundantes 8 horas por semana, dediquei algum tempo a um projecto de investigação no Conservatório, a propósito de manuscritos de Domenico Cimarosa que aí consultei. Esta modesta investigação, feita a convite do Prof. David Cranmer, resultou num artigo que muito generosamente quis que fosse co-assinado pelos dois, e que apresentámos num colóquio no Teatro Nacional de São Carlos a propósito do lançamento do livro sobre Marcos Portugal em que foi publicado. 

oitavo capítulo de Marcos Portugal - Uma Reavaliação 

coordenado por David Cranmer

O resto do tempo, francamente, passei-o a aprender as coisas que verdadeiramente interessam e a passear por Itália.
Tinha fins-de-semana de quatro dias e muitos passei--os em Veneza, que se tornou lugar de peregrinação. Também aprendi a cozinhar os primeiros pratos dignos da idade adulta, juntando a fome à vontade de comer, o que, diga-se, na Emilia Romagna se pode fazer melhor do que em qualquer lado do mundo.

Só entre provas de mortadela, lambrusco e ameixas, fiz-me mais doutor do que em qualquer faculdade. Também cantava no coro da universidade, nadava no Centro Sportivo Universitario, fuori mura, a uns quarenta minutos de autocarro, e descobri a colecção de Brodsky publicada pela Adelphi.

Não é um retrato da felicidade?

De regresso a Portugal, consegui o meu primeiro e muito apreciado emprego, em part-time, cumprindo a função de assistente de sala na Fundação Calouste Gulbenkian, em que para além de ser pago para assistir a todos os concertos da temporada ainda me era possível, nas horas vagas, deambular pelas entranhas da Fundação e em segredo experimentar os sumptuosos pianos de concerto. 

Terminou o ano lectivo, guardei o diploma, que continua até hoje fechado na mesma pasta de papel, e assim terminou a minha etapa em Portugal.

Fotografado em flagrante delito a experimentar um Steinway Modelo D na cave da FCG

Formação, parte II - Itália (como só podia ser)

Foi ainda durante o ano de 2012, e já depois de voltar de Bolonha, que obtive no Istituto Italiano di Cultura di Lisbona o nível C2.2. Tinha sido aluno de italiano na Rua do Salitre desde 2008, longe de algum dia imaginar que chegaria a ter uma relação tão próxima com esse país. Simplesmente tinha ido a Itália uma, duas, três vezes e estava apaixonado pela cultura do país.

O meu diploma de língua, combinado com o facto de ter vivido recentemente seis meses em Itália, fez com que quando fiz o exame de admissão para um curso de direcção de orquestra em Milão, em dezembro de 2012, já fosse francamente fluente em italiano. Daí até 2016, ano em que deixei esse país bem-amado, o italiano tornou-se uma língua verdadeiramente minha, que vesti como uma segunda pele. Hoje é com frustração que vejo quão enferrujado está o meu italiano comparado com aquilo que foi há uns anos.

Em Itália fui duplamente aluno do mesmo mestre, oscilando entre as cidades de Milão e Brescia, as duas principais metrópoles da Lombardia, a uns 80km de distância e ligadas por uma linha de comboio que combina o caríssimo Freccia Rossa e o impossivelmente lento e degradado Regionale. 

Foi na cidade de Brescia, no lindíssimo Ridotto setecentista do Teatro Grande, que em maio de 2014 dirigi o meu primeiro concerto, com uma orquestra que vim a intitular Orchestra di Maggio, pois nos três anos em que reuni o grupo, sempre tocámos em maio, e havia algo de primaveril na juventude e espírito que unia esses músicos que eram e são hoje amigos que nunca poderei esquecer.

Este projecto orquestral conseguiu crescer em pouco tempo e assegurar financiamento próprio, permitindo no segundo e terceiro anos de actividade remunerar os músicos. Chegou até a fazer-se a propósito disso mesmo um documentário de 20 minutos, que foi projectado antes de um nosso concerto. Terá sido provavelmente a única vez na minha vida que imediatamente antes de me ver no palco, o público me viu no ecrã.

Cartaz para o meu primeiro concerto: 27 de maio de 2014

Fragmento de Primo Movimento, de Simone Rigamonti

O documentário procurava captar as aspirações de um jovem director de orquestra, saído do seu país em busca de um sonho, complementando-lhe a construção da personagem com imagens do dia-a-dia no Conservatório e fora dele, entrecortadas com ensaios para um concerto.

Para além dos amigos e colegas que compunham a Orchestra di Maggio, com quem me apresentei em várias cidades, tive o prazer de também dar palco a outros que eram promissores solistas. Lembro, por exemplo, a Giulia Libertini, que connosco tocou pela primeira vez enquanto solista com orquestra - e logo o Concerto em Ré de Haydn! Recentemente fui feliz ao vê-la na televisão, a tocar magnificamente o solo com que inicia o Guglielmo Tell de Rossini, sob a batuta de Zubin Mehta num concerto no Coliseu em Roma para dezenas de milhar de pessoas.

programa do concerto com a Orchestra di Maggio em que debutou como solista Giulia Libertini

Maio de 2015

recensão do concerto, continuando a tradição de ver o meu nome ser mal citado em Itália

Maio de 2015

Foi também nestes anos que pela primeira vez me aconteceu receber a chamada mais desejada para um aspirante a maestro: um dia em abril o telefone tocou e do outro lado um professor de composição perguntava-me se estaria disponível para substituir o maestro de uma orquestra juvenil de Taiwan que estava a realizar uma tournée por Itália. O programa incluía Wagner, Bizet e Paganini, só permitia um ensaio de três horas e era para daí a uns dias. É a ocasião em que a pergunta não é uma questão mas um chamamento, e a resposta, óbvia, é sim.

Ensaio e pós-concerto com a orquestra de Taiwan. Ao centro da segunda foto estou a segurar as baquetas do tímpano, enquanto alguém estava com a minha batuta.

Defendo que o mais importante nos lugares são as pessoas, e é por isso que voltar a um lugar em que fomos felizes mas onde já não estão as pessoas que o habitaram connosco pode ser uma experiência desoladora.

Fui para Itália estudar com Gilberto Serembe, exímio pedagogo e musicista, mas ganhei como bónus Umberto Benedetti Michelangeli, na teoria professor de leitura de partitura, mas na prática muito mais do que isso. Se o primeiro era o típico músico que subiu a pulso e a custo da sua raça, o segundo é como um príncipe das artes. 

Umberto Benedetti Michelangeli dirige a mais viva e plástica versão desta sinfonia que já ouvi, com a Orquestra de Câmara de Basileia

O apelido mete medo, porque evoca um dos maiores intérpretes da história (Arturo, irmão do seu pai), mas para os conhecedores lembra ainda o pai violinista, também Umberto, lendário concertino em Milão na metade do século passado.

É difícil explicar a admiração e fascínio que este homem exerce sobre a maior parte das pessoas. Imagine-se um aristocrata sempre elegante, culto e refinado como um Medici, que nos habitou a vê-lo fumar cachimbo na sala de aula como se não estivéssemos numa escola em pleno séc.XXI. Para ele não havia horário de aulas, nem tema de lição, nem qualquer espécie de plano. Anunciava quando estaria pelo Conservatório e era aparecer, sabendo que no momento em que se batia à porta da sua sala, o dia tinha acabado: daí até depois do fecho do Conservatório, seríamos prisioneiros da sua voracidade musical. 

A primeira coisa que fazia era enviar-nos, mensageiros, à biblioteca do Conservatório e requisitar as partituras que queria tocar nesse dia. Trouxe-lhe de tudo: de livros de madrigais de Monteverdi a quartetos de Haydn, aos Nocturnos de Debussy.

A leitura à primeira vista dele era de tal forma excelente, e a sua inteligência e charme tão desarmantes, que dizíamos que qualquer sinfonia desconhecida e juvenil de Mozart ou Haydn que nos tocasse ao piano se transformava na obra mais genial e incontornável de todo o repertório ocidental. Assim que chegávamos a casa nesse dia, íamos a correr para o Spotify ouvi-la na esperança de reviver a maravilhosa descoberta, e era sempre a mesma decepção: Não era na sinfonia que estava o sublime, era com ele.

Quando o Conservatório fechava, encaminhava-nos pelo braço, lentamente e como se não existissem funcionários a bufar nas nossas costas para nos verem fora de portas, e íamos tomar um aperitivo na praça do Conservatório. Praça essa que se chama nada mais nada menos do que Piazza Arturo Benedetti Michelangeli. Outras vezes, já estando escuro, o convite era de seguir directamente para sua casa, onde a conversa continuava noite adentro.

Era aí, no seu estúdio, que nos deixaria saber quais as partituras e projectos em que estava a trabalhar.

Assim eram as aulas de leitura quando UBM não estava ao piano

Como todos os artistas que mais admiro, Umberto Benedetti Michelangeli é um quase-iconoclasta. Os seus gostos musicais são muito restritos, de Monteverdi a Beethoven, e depois disso, apenas salva a escola francesa de fin-de-siècle.

Outra das maravilhas de ser seu discípulo era testemunhar o seu trabalho com uma das orquestras mais extraordinárias que alguma vez vi: a Orchestra da Camera di Mantova, da qual é co-fundador. 

Mântua é uma cidade maravilhosa, palco dos Gonzaga, de Orfeo e de Rigoletto. Aí, no inexplicável Teatro Bibiena (onde há uma sala num andar superior na qual Mozart tocou em criança), ele comandava uma orquestra delicada, perfeita, brilhante. A última vez que o vi ensaiar, estava a preparar uma sinfonia e dois concertos para piano de Mozart, e a solista era a Maria João Pires. Era, mas não foi, pois cancelou as performances a apenas dias do concerto. Enquanto as agências se mexiam para encontrar uma solução de última hora, ele ensaiava o acompanhamento da orquestra, impassível e maravilhado, encontrando-lhe tanto charme que propunha em brincadeira apresentá-los sem solista.

Achou-se então um pianista, e era nada menos do que Aldo Ciccolini, já com 89 anos, pronto para substituir Maria João Pires e tocar não um, mas dois concertos no mesmo programa. Foi de uma beleza tocante, e foi também a última vez que o mestre se apresentou como solista, pois viria a falecer menos de três meses depois.

UBM, Aldo Ciccolini e Orchestra da Camera di Mantova no ensaio geral para um concerto só com obras de Mozart: novembro de 2014

Os últimos meses em Itália foram passados em estado de azáfama com o processo de audições no estrangeiro, e depois disso em frenesim com a notícia de que iria para Chicago, que era, de todas as escolas que tentei, a que estava no topo da minha lista.

Um dos últimos actos em Itália foi uma viagem com a Orchestra di Maggio, com concertos em Cologne e Florença, tendo realizado a entrevista final para o concurso de bolsas Fulbright via skype no hotel em Florença, mesmo antes de sair do quarto para ir dirigir.

Último suspiro da Orchestra di Maggio, com Francesco Manessi, depois do terceiro concerto de Beethoven,

Cologne, maio de 2016

Cerimónia de entrega das bolsas Fulbright, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, junho de 2016

Formação, parte III - Estados Unidos da América

Cheguei a Chicago a 5 de setembro e pouco depois, no dia dos meus 25 anos, o presente que recebi foi almoçar com o meu derradeiro mentor, Victor Yampolsky, o homem por quem acabara de atravessar o oceano. Foi um encontro da classe de direcção, destinado a dividir tarefas para o resto do ano: tu ficas assistente na orquestra sinfónica, tu na orquestra de câmara, tu vais para o ensemble contemporâneo, etc.

A Bienen School of Music tem 6 orquestras, e eu fiquei com a orquestra barroca. O que pareceu à primeira uma enorme desilusão acabou por revelar-se uma descoberta maravilhosa, de tal forma que no segundo ano pedi para ser mantido na mesma posição.

O primeiro concerto que realizei com o Baroque Music Ensemble, dirigindo Telemann, novembro de 2016

Se em Itália complementava os estudos e ensaios com a oferta cultural de Milão (ou seja, o Scala, pois tudo se passa aí), em Chicago foi como uma explosão: todos os dias havia ensaios para isto ou para aquilo, nunca tinha menos de três ou quatro partituras para aprender a toda a hora, e o downtown oferecia alguns dos melhores concertos do mundo, com a Chicago Symphony Orchestra, a Lyric Opera, o ballet, o Harris Theater, programação contemporânea de ponta, etc. É o tipo de cidade a que se chama world-class, e que basicamente quer dizer que a cada dia que passa estamos a perder coisas fantásticas.

Die Zauberflöte na Lyric Opera of Chicago, no dia de aniversário de Mozart: 27 de janeiro de 2017

Por enorme e auspiciosa coincidência, fui o terceiro português aluno de Victor Yampolsky, passados uns doze anos de a Joana Carneiro ter lá obtido o seu mestrado. Não foi pelo espírito português, mas pela escola eslava, que quis estudar com ele. Tinha aprendido russo de forma consistente desde 2012, e durante o meu mestrado quase sempre falámos um com o outro nessa língua. Vou para sempre guardar as memórias que me passou, numa intimidade que me surpreendeu, o homem que nasceu filho de dois génios (ambos os pais pianistas), estudou violino com Oistrakh (o irmão foi aluno de violoncelo de Rostropovich), direcção com Rabinovich, foi concertino da Filarmónica de Moscovo com Kondrashin e depois disso passou onze anos a liderar a Boston Symphony. Protegido de Bernstein, habituado a jantar com Shostakovich em criança, estreou a mais ambiciosa ópera de Messiaen, tocou no Musikverein, Carnegie Hall, Philarmonie, etc etc etc. Em resumo, a sua vida mistura-se com a história da música e a mais alta escola de intérpretes.

Era com este homem que eu queria ter estudado, e teria ido onde fosse preciso para isso. As memórias que me passou incluem a aventura do exame de direcção de orquestra no conservatório de Leninegrado, em que dormiu em casa do colega Solomon Volkov (o autor de Testimony, o genial e controverso livro de 1979 sobre Shostakovich) e fez a prova de admissão com uma partitura surripiada ao próprio Mravinsky. O que era estar em tourné com Ozawa pelo Japão, como foi crescer brincando debaixo do piano enquanto o pai ensaiava para as dezenas de discos que gravou com Oistrakh e Kogan, ou simplesmente o que era viver na URSS. Sempre achei que por falarmos a sua língua mãe, ele se revelava mais íntimo e próximo de mim do que alguma vez o vi abrir-se em inglês, e já no fim da minha estadia consigo, perguntou-me uma vez a quem é que ia contar estas coisas velhas, agora que eu me ia embora, e foi a custo que aguentei uma lágrima. Quer isto dizer que o meu processo de camaradagem e aculturação eslava estava praticamente completo. Só nos faltou beber e chorar à volta de um samovar.

Para além de seu aluno, tive o privilégio de tocar sob a batuta de Victor Yampolsky por três vezes. A última foi em The Bells de Rachmaninov, que apresentámos em junho de 2018 no auditório Pick-Staiger e no dia seguinte no gigantesco Pritzker Pavillon no Millenium Park de Chicago

Se no fim destes dois anos éramos próximos, no princípio não foi assim, e quase não sobrevivi à escola de repressão soviética com que me vi confrontado com o meu primeiro concerto sinfónico enquanto seu aluno, em novembro de 2016. Yampolsky veio ao meu primeiro ensaio e viu-me trabalhar na sinfonia nº1 de Schumann, tendo rapidamente perdido a delicadeza de me sugerir coisas ao ouvido, passando a vociferar em alto e bom som, tudo aquilo que entendia que eu estava a fazer de mal. Foi para mim uma experiência tão arrasadora e de humilhação em frente a uma orquestra de colegas que mal me conheciam, que fui para casa a pensar que tinha chegado ao fim a minha aventura americana, apenas um mês e meio depois de ter começado. No dia seguinte não sabia como o encarar, mas apresentei-me no seu gabinete, onde me confessou que não acredita em elogios e que me tinha simplesmente submetido a um teste de pressão. 

Até hoje não sei se os seus métodos são certos ou errados. É um prodígio, a caminho dos oitenta e ei-lo, com o seu ouvido estratosférico a dirigir obras gigantes de memória e a fazer estreias mundiais umas atrás das outras. Mas é um prodígio que impõe o respeito mais do que o conquista, e isso, confesso, é para mim a lição que nunca conseguiu aprender de Bernstein.

A grande diferença entre uma boa escola de música e uma escola de topo, é que a escola de topo é literalmente uma rampa de lançamento para o mundo profissional. Acontece-nos sermos solicitados e chamados para trabalhar, simplesmente pelo facto de pertencermos a uma classe restrita e de elite. Por alguém estar indisponível, acontece trabalharmos com um novo grupo. Se esse trabalho correr bem, alguém se vai lembrar de nós no futuro. É assim que funciona, e foi assim que pus o primeiro pé na música contemporânea, através da generosidade de Alan Pierson, que decidiu apostar em mim.

Concertos com as primeiras duas estreias mundiais que realizei, e que me abriram as portas para outras sete ao longo do ano, já fora de Chicago

Apesar de estar numa excelente escola, quando terminei o mestrado em Chicago, duas coisas eram claras para mim: não queria nunca mais ser aluno de ninguém, nem queria ficar pelos EUA a tentar uma carreira de maestro. Aprendi muito, mas acima disso, abriu-se a minha cabeça. Abriu-se demasiado para algum dia poder desejar viver sozinho entre aviões, salas de concerto e quartos de hotel, e decidi regressar para Portugal, onde senti que era hora de voltar, após seis anos de ausência, e dedicar-me às coisas que verdadeiramente fazem ferver o sangue. 

Interlúdio da ópera O Nariz de Shostakovich.

Gravado com membros da classe de percussão da Bienen School of Music, para um projecto de pedagogia musical que entretanto deixei em stand-by

Voltei então para Lisboa com projectos suficientes para encher uma vida.

De tudo quanto fiz e comigo se passou nestes anos, em termos profissionais, se encontra um resumo conciso no meu CV. Aqui nada mais me interessa do que partilhar algumas das coisas que não têm lugar nesse documento estranho e impessoal em que somos obrigados a falar de nós mesmos na terceira pessoa do singular, assim como outras passagens que por alguma razão a memória decidiu guardar.