Porquê comunicar

A Música é uma linguagem carregada de significados, com a sua própria sintaxe e léxico, tal como a língua portuguesa ou a arquitectura. Disso não há dúvida. Mas por vezes, apesar da clareza com que se articula e o interesse do seu conteúdo, a mensagem nem sempre é recebida pelos ouvintes. Muita gente ainda vê a música clássica como aborrecida, pouco excitante e, sobretudo, uma forma de arte velha.

 

Aos músicos digo sempre: se queremos perserverar e garantir que a nossa arte tem lugar na vida das pessoas, é necessário que contribuamos para a re-apresentação daquilo que fazemos. Não podemos continuar no conforto de pregar aos convertidos.

É urgente um esforço de raíz, e não cosmético, para transformar a experiência de quem se cruza com a música clássica, para que possamos oferecer momentos tão marcantes que repeti-los se torna uma necessidade.

Esse esforço passa por re-pensar a experiência da sala de concerto, a relação do público com os músicos, a escolha do repertório e claro, pela forma de comunicar a música. 

Comunicação em música não é ensinar teoria nem musicologia nem história. Trata-se de transmitir formas de nos relacionarmos com esta arte apaixonante, e de permitir que cada um se encontre com o que a música deve oferecer e seja dono da sua experiência.

Comunicação com o público antes de dirigir Handel, Chicago, outubro de 2017

O ecossistema da música clássica sofre de um atraso e conservadorismo moral, tecnológico e ideológico que é em parte culpa dos próprios músicos. Somos nós, em primeiro lugar, quem revira os olhos quando há um aplauso espontâneo no fim de um primeiro andamento de um quarteto de cordas, somos nós quem se veste como figuras do séc.XIX para tocar a estreia de uma obra para grande orquestra no séc.XXI e somos nós que muitas vezes não temos a clarividência e humildade para aceitar e indagar o porquê de o público frequentemente não entender ou achar interesse no que fazemos.

 

O formalismo com que a música clássica se apresenta é uma barreira que hostiliza quem dela se aproxima pela primeira vez. Esse formalismo rígido vai mascarado de respeito, mas é caduco e opaco, e faz lembrar mais que nunca o mote de Mahler:

"A tradição não é cuidar das cinzas, mas sim manter a chama acesa."

Vejo a comunicação em música como um campo de enorme liberdade em que posso escolher qual o caminho que quero para provocar pensamentos e reacções, e em que o público se sente livre para construir a sua própria experiência. Uma espécie de zona de tréguas entre todos, em que a única coisa que pretendo é acender essa chama.

Ao crer que a arte deve ser quotidianizada, não tenho pudor em servir-me de tudo quanto possa estimular a imaginação e a interpretação da música: Michael Jackson, vinhos do Douro, um retábulo barroco, um romance tosco, tudo é material combustível para cumprir a frase de Mahler.

Feira do Livro do Porto, setembro de 2017

Sonho com uma sociedade em que a arte é ponto de encontro e elemento de convergência. Convergência não no sentido de todos concordarmos uns com os outros, mas de sermos convocados a testemunhar e fazer parte da mesma experiência. A música precisa de criadores, intérpretes e público, e temos de lutar para que não se desagreguem.

Não precisamos de músicos que toquem como deuses se não conseguimos ouvir a essa altura. O sucesso de qualquer interpretação depende de a música comunicar ou não. De ser ou não entendida, e logo, partilhada e apropriada, tornada em património de quem a ouve. 

Comunicação, para mim, é também dar voz a todos os que podem enriquecer os discursos da música

Neste sentido, ainda não cheguei onde quero e tenho consciência de que não há caminhos, há somente que caminhar. Cada tentativa é um erro, mas é também um passo.

É com enorme interesse e até adrenalina que me dedico cada vez mais a um papel activo na transmissão do amor pela música clássica.