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classical music and Netflix

Intervenção e performance | 4 DEZ 2018 | THE STATE OF THE ART: 2019 and beyond

Nova SBE, Carcavelos

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Nesta ocasião dediquei-me a uma reflexão sobre possíveis caminhos para um futuro sustentável na música clássica. Partindo do pressuposto, conhecido e debatido, de que a música de tradição “erudita” europeia (passe, à falta de melhor, esta expressão que detesto) é cada vez menos significativa e procurada enquanto forma de arte pelos jovens de cada geração, identifiquei aqueles que me parecem ser os principais problemas de que sofre a música clássica: rigidez e estagnação.

Através de uma comparação entre música e outras artes (pintura, culinária e instalação por exemplo), podemos verificar que a música clássica se apresenta de uma forma frequentemente anacrónica, pouco apelativa e até mesmo hostil a quem se aproxime dela pela primeira vez. Verificamos que a enorme maioria dos consumidores de música clássica não habitam o seu tempo e dedicam-se à escuta repetida de obras do cânone clássico, sendo praticamente impossível que obras novas (i.e, escritas após 1945) passem a fazer parte deste corpo de repertório.

Quanto aos jovens, é praticamente impossível seduzi-los sem o auxílio de estratagemas complementares de pedagogia, pois a ligação a esta música e o fio para a sua interpretação estão há muito tempo perdidos.
Enquanto intérprete e defensor desta forma de arte, sinto-me muitas vezes na posição de um pai que tenta abrir a boca a um filho para o fazer engolir uma garfada de bróculos.

Setup de percussão, incluindo alguns dos muitos instrumentos de cozinha necessários para interpretar Hell’s Kitchen

Partindo destes pressupostos, propus atrair o gosto pela música clássica partindo do nosso tempo, evitando usar como porta de entrada música escrita há duzentos ou trezentos anos. O meu raciocínio foi o de que, possivelmente, haveria mais elementos em comum entre a música de hoje e o tempo que habitamos, do que entre os dias de hoje e uma fuga de Bach. Assim, ao tocar algo que ao ser contemporâneo também se inscreve na tradição secular da música clássica, quis oferecer a ponta final do fio, como um convite à curiosidade. Para isso, a minha intervenção concluiu-se com uma performance - em estreia europeia - de Hell’s Kitchen, de Robert Paterson. Quem, ouvindo aqui pela primeira vez música clássica ao vivo, se sinta atraído por esta obra irreverente e apelativa, pode então começar a puxar esse fio da curiosidade, de onde sairão, um após outro, nomes de Kaija Saariaho, John Cage, Igor Stravinsky, Gustav Mahler, Johannes Brahms, Ludwig van Beethoven, Johann Sebastian Bach, Carlo Gesualdo, etc.

Fidelidade presents Martim Sousa Tavares, entrevista por Gaia Lutz

Trata-se no fundo de desenvolver o gosto por uma arte que tem muitos séculos, mas partindo do nosso próprio tempo como ligação privilegiada para a interpretação desta forma de comunicação. Pretendi ainda  defender que a música clássica deve ser também um espaço de renovada novidade, e não apenas um exercício quase museográfico de repetição daquilo que já conhecemos e ouvimos.

A performance de Hell's Kitchen contou com os seguintes músicos:

Maria Luís Garcia, violino e moinho de café

Válter Freitas, violoncelo

Vítor de Sousa, clarinete, clarinete baixo e liquidificadora

David Silva, flauta e liquidificadora

Philippe Marques, piano

Francisco Cipriano, percussão e utensílios de cozinha

​Débora Madureira Andrade, assistente