Autor

Não sou autor de muita coisa, mas sou há pelo menos 14 anos um compositor em insistente latência. No verão de 2006 apresentei um recital de piano na Academia de Música de Lagos para entreter família e amigos. No programa, entre prelúdios disto e daquilo, estavam duas peças de Asous Seravat, que apresentei nas notas de programa como compositor checo discípulo de Smetana, de quem não sobrevivem muitas composições.

Ninguém reparou que Asous Seravat não é mais do que Sousa Tavares ao contrário, e foi apenas perante a insistência de um amigo da família mais melómano e interessado que confessei o meu crime passados uns dias.

Desde aí, na verdade nunca parei de escrever música, toda ela directamente para a gaveta, ou destruída passados uns anos.

Em 2019 chega pela primeira vez a oportunidade, não por mim procurada, de ouvir a minha música em público. Através do desafio que me foi feito há já algum tempo, de contribuir com música original para acompanhar récitas de O Bojador, escrevi música a partir desse texto para quarteto de cordas, com a intenção de, de forma simples, complementar a caracterização das situações e personagens.

A música que escrevi varia entre segmentos com alguns segundos a cenas com mais de seis minutos de seguida. A ideia é sempre a de enriquecer o texto.

Não estou a tentar alavancar uma carreira como compositor, pois sempre me interessou mais a música dos outros que já existe, mas confesso que o processo é muito estimulante e dá vontade de continuar.

Em 2018 os primeiros acordes que dirigi traziam na verdade algo de meu, pois o primeiro concerto do ano foi no âmbito do centenário da morte de António Fragoso, e a obra que abria o programa de concerto com o Ensemble MPMP em Cantanhede e Coimbra era uma orquestração minha do Nocturno para piano e violino de Fragoso, realizada a pedido do sobrinho do compositor, Eduardo Fragoso.

Primeiros compassos do Nocturno com a minha orquestração

Gravação ao vivo, janeiro de 2018

Sei que este tipo de solicitação irá acontecer de forma natural, e considero que a melhor escola de escrita é, e sempre foi, a leitura. Assim, enquanto não chegam mais convites, vou alegremente continuando a estudar partituras novas e revisitar as antigas. 

Em 2019 o ano acaba com um trabalho a quatro mãos com a artista multidisciplinar Francisca Aires Mateus, na construção da instalação Musica Humana, que foi a sua proposta finalista ao Prémio Sonae Media Arts, patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea no Chiado nos primeiros meses de 2020.

Composição nº5: Ana
Composição nº20: Carolina
Composição nº23: João Maria

Esta instalação previa a composição de 24 peças instrumentais a partir de algoritmos por mim desenvolvidos para o tratamento musical dos dados retirados de questionários complexos realizados a 24 pessoas diferentes.

O resultado, por estar subordinado a dezenas de variáveis que determinavam praticamente todos os parâmetros - quantidade de notas, durações, ritmos, dinâmicas, instrumentos e intervalos possíveis - era sempre surpreendente mesmo para mim. 

Foi uma experiência algo híbrida entre compor com um método e compor com o acaso, e sobretudo, um exercício de objectividade e tratamento de dados através do filtro musical.

Uma vez escritas e gravadas, as obras foram apresentadas numa complexa espacialização concomitante numa sala escura do MNAC, onde os visitantes circulavam entre aquilo que era uma floresta de personalidades sonoras.

Pouco depois, tocou-me arregaçar de novo as mangas e orquestrar de uma enfiada 18 canções dos Capitão Fausto para um concerto único, em que o plano de seis amigos de longa data finalmente se cumpriu: um concerto que juntasse a banda e uma orquestra dirigida por mim.

A orquestra seria a Filarmonia das Beiras, e a orquestração foi ouvida por vários milhares de pessoas num Campo Pequeno repleto, no dia 7 de março de 2020, deixando no ar a possibilidade de se perpetuar este projecto em disco um dia.

Para além de escrever notas, também há as palavras...

A partir do verão de 2019 iniciei uma colaboração que será esporádica mas fiel com o Jornal do Fundão.

É uma honra e um prazer assinar textos neste jornal histórico, talvez o único a nível nacional a ter feito da cultura a sua espinha dorsal. Por aqui passaram Saramago, Lucas Pires, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, e o célebre e destemido episódio com o Luandino Vieira que lhes valeu sarilhos com a PIDE. São cá dos meus. 

O Jornal do Fundão serve ainda para lembrar que ser nacional e ser regional não são antíteses. Basta olhar para a imprensa alemã.

Carta à Europa

Publicado em La Lettre du Musicien

Um texto sobre o lugar da cultura na sociedade, e de qual pode ser esse lugar na Europa.

Texto em FR, PT, ENG.