​Música contemporânea

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March 9th?

Como disse na biografia, na profissão de intérprete vigora uma espécie de mors tua vita mea, em que a indisponibilidade de um se transforma em oportunidade para outro. Foi assim que pus o meu primeiro pé na música contemporânea, ao substituir o meu colega que trabalhava com o Contemporary Music Ensemble. Aconteceu uma vez, logo a seguir outra, e depois disso fui chamado para colaborar na produção complexa de uma obra de Gubaidulina em que estava também o melhor coro da escola, liderado pelo já duplo Grammy Donald Nally, e que da minha parte envolveu uma leitura de texto em russo com voz de baixo profundo ao microfone no fundo da sala às escuras.

Ao longo destes dois meses, o meu método de trabalhar deve ter agradado ao líder do Institute for New Music, Alan Pierson, que me recomendou daí a umas semanas para um festival de música contemporânea no estado de NY que ia ter a sua primeira edição durante o mês de junho e onde ele seria um de três maestros convidados.

Aceitei tudo o que o Alan quis pôr no meu prato, e serei para sempre grato pela posição de "padrinho" que assumiu em relação a mim em tão curto espaço de tempo.

All hands on deck: Alan Pierson, Contemporary Music Ensemble, Donald Nally, Bienen Contemporary Vocal Ensemble a ensaiar Jetzt immer Schnee de Gubaidulina, com complexa espacialização e desenho de luz. Maio de 2018

Para além das oportunidades directas, devo ainda ao Alan a aprendizagem sobre o modus operandi da música contemporânea, o processo de trabalho e pesquisa e, sobretudo, a eliminação de barreiras. Em junho, quando veio ao Mostly Modern Festival, apresentou um programa com a estreia americana de uma obra já de si bastante complexa de Pelle Gudmundsen-Holmgreen, Mirror II, fantástica mas difícil de ensaiar. Por cima disto, decidiu espacializar os músicos, com grupos que circulavam em diferentes locais, e de novo vi repetir-se a experiência de Gubaidulina, em que todos os presentes tiveram de se envolver na realização da obra em trabalho de equipa. Foi talvez o mais próximo de uma experiência cénica sem a componente teatral que já tive, e calhou-me desta vez a função de off-stage conducting para um violinista que iria abandonar o palco e sair pela porta de emergência enquanto tocava uma longa litania a partir do Concerto de Beethoven.

Este tipo de liberdade conceptual, de plasticidade sobre a matéria sonora e de experiência para o público infelizmente só é comum e até possível na música contemporânea. Mais do que nunca, esta experiência agarrou-me, pois uma liberdade assim simplesmente não existe com sinfonias de Mozart ou poemas sinfónicos de Liszt, e desde aí ando a pensar sobre como transpor este tipo de experiência única e enriquecedora para a música clássica enquanto estratégia de sobrevivência e até salvamento para a minha forma de arte.

No mesmo programa em que Alan Pierson dirigiu Mirror II e Symphony in Three Movements de Stravinsky, eu dirigi a estreia mundial de Variations de Steven Juliani. Foi a terceira e última vez que partilhámos o palco.

Junho de 2018

Quando o compositor está no WhatsApp

Falando com músicos activos em repertório contemporâneo, vemos frequentemente ser mencionado o privilégio de trabalhar com compositores e construir as obras de forma conjunta. 

Foi precisamente isso que mais me interessou neste festival, pois foram-me atribuídas centenas e centenas de páginas por estrear dos vários compositores residentes, o que aliado ao facto de haver poucos maestros para tanta música, fez com que em dez dias realizasse a estreia de sete obras para ensemble e orquestra, assim como um par de segundas audições. Cada obra era diferente, reflexo de uma personalidade única, e todos os compositores estavam presentes, o que fez do processo de trabalho uma espécie de laboratório de pesquisa. Isto, aliado à enorme vontade de descobrir, tentar e errar por parte dos músicos, foi outra descoberta aliciante em relação à música contemporânea: Onde, alguma vez na vida, é que há espaço no processo de ensaios para explorar, errar e tentar de novo, com seriedade e entusiasmo, quando trabalhamos repertório que não seja contemporâneo? Outra lição da música contemporânea.

De todos os compositores presentes, jovens ou não, o que mais me marcou foi Robert Paterson. Veio parar-me às mãos uma partitura sua, Hell's Kitchen, e assim que a tirei do correio em finais de maio e comecei a folhear, ainda no elevador, apaixonei-me pela linguagem.

Para além do enorme sentido de humor e falta de formalismo, pareceu-me ter encontrado um compromisso perfeito para o século XXI, combinando diferentes técnicas de composição, incluindo tecnologia, experimentação e efeitos na medida ideal. 

Foi com enorme prazer que dirigi esta obra, com o excelente American Modern Ensemble, e prometi a mim mesmo que havia de a estrear na Europa.

Não era fácil, devido ao aparato de percussão necessário, sobretudo todos os utensílios de cozinha, mas não tendo desistido da ideia, a oportunidade lá apareceu. Em novembro estava em Nova Iorque e fui jantar a sua casa, onde discutimos algumas ideias, sobretudo porque eu queria complementar a performance da obra com desenho de luz e projecção de didascálias retiradas da partitura, pois uma vez que se trata de música de programa, queria que o público tivesse acesso a essa informação escrita e ao sentido de humor de Paterson.

Sem surpresas, ele aceitou, e assim fiz a estreia da obra, a culminar a minha intervenção The future comprises classical music and Netflix.