​Música clássica e romântica

Os 150 anos de ouro da música clássica

Dizer música clássica e romântica é colocar na mesma gaveta Mozart e Grieg, não porque sejam estilísticamente parecidos, nem para reescrever a história da música, mas simplesmente porque requerem uma abordagem que, conceptualmente, não é muito diferente. Sinto-me mal por incluir nesta categoria Debussy e Ravel, que não sendo românticos tão pouco são modernos (e por favor não lhes chamem impressionistas, que eles não gostam). Mas o meu leitor entenderá. Talvez com o tempo venha a acumular tanta experiência no período clássico e no período romântico, que terei de fazer duas categorias.

Quando digo que conceptualmente a abordagem não é muito diferente, estou mesmo a pedi-las para me afundar em terrenos pantanosos, pois aquilo que quis dizer é que no fundo, a maior dificuldade com esta música não é do ponto de vista técnico, mas sim da sensibilidade: é preciso conhecer o estilo, a linguagem, o tipo de som adequado, a tradição. Com pena minha, vejo como vários colegas se esquecem frequentemente deste último ingrediente, o que me parece imperdoável na era da tecnologia. Conheço casos de directores que tiveram mesmo o descaramento de se aventurar com repertório de belcanto em salas de ópera em Itália sem conhecer a tradição e saíram penosamente marcados pelos assobios e desprezo dos músicos.

O mesmo aconteceu a Kleiber no Scala com a Bohème, mas Kleiber conhecia a tradição, ninguém lho pode negar.

Bastava-lhe o pai que tinha em casa.

Concertos em Cantanhede e Coimbra com o Ensemble MPMP pelo centenário de António Fragoso

Janeiro de 2018

E para além disso não obedeceu à tradição estando apoiado num conhecimento supremo da partitura (é vê-lo dirigir toda a ópera de memória, coisa fácil) e respeito dos músicos.

É simplesmente imperdoável, para o comum dos mortais que não são Kleiber, ostensivamente ignorar a tradição, seja para a continuar ou para a contornar, e com isto quero dizer ver uns poucos concertos se possível e fazer um esforço de pesquisa sonora andando para trás no tempo, tão para trás quanto a tecnologia no-lo permite.

Dizia então que, conceptualmente, são estes os elementos que caracterizam a música clássica e romântica. Mas não será exactamente o mesmo com a música barroca?

Claro que sim, a música barroca não é excepção, mas eu avisei que me ia enterrar em terrenos pantanosos. 

Ensaiando o Concerto para Viola em Ré Maior de Hoffmeister

Chicago, novembro de 2017

Gravações ao vivo do concerto de Coimbra com o Ensemble MPMP, que creio ter sido a primeira vez que este grupo interpretou música de autores estrangeiros

A música barroca, assim como a música moderna (um Bartók, por exemplo) apresenta-se apesar de tudo com uma maior frescura e espaço para respiração e movimento para o intérprete, como se a própria música fosse matéria mais leve e mais plástica. É como se fosse tela com mais espaço em branco para pintar do que com Tchaikovsky. É mais fácil fazer uma interpretação inovadora sem cair no mau gosto de um compositor como Vivaldi do que Mendelssohn.

César Franck com a Orquestra Filarmonia das Beiras

Aveiro, julho de 2015

Continuar a tradição (?)

E é aqui precisamente que entra a tradição, que me parece o jogo mais interessante de todos os aspectos, pois cada concerto que fazemos é um novo tijolo que acrescentamos à construção da identidade da obra e podemos escolher exactamente como queremos que esse tijolo seja. Tanto pode ir de encontro ao que se fazia nos anos 1950, como pode ser de 2010, ou pensado para 2035. 

Esta pouco conhecida Ouverture tem possivelmente um dos exemplos mais antigos de extended techniques, criando um efeito cómico e surpreendente

Chicago, janeiro de 2018

É comum que praticamente todos os concertos que realizamos tenham pelo menos uma ou duas obras que se enquadram na categoria "clássica e romântica", pois é neste século e meio de criação que está a maior parte das galinhas dos ovos de ouro da música clássica: Mozart, Beethoven, Schumann, Brahms, Tchaikovsky, Sibelius, et al... Apesar disso, cada vez entendo melhor os intérpretes, como Glenn Gould, Umberto Benedetti Michelangeli e outros que conheço, que se afastam, tal força centrífuga, deste núcleo central da música clássica. Há de facto maior frescura de terrenos por pisar andando para trás e para a frente, e eu próprio sinto que cada vez mais, as obras que mais desejo explorar se encontram nos extremos das balizas temporais que defini para a minha actividade.

De qualquer forma, interessa-me toda a música boa, e enquanto maestro, simplesmente não posso nem quero virar à cara a este repertório extraordinário. É como se fosse uma espécie de santo graal da música clássica, sem o qual a minha aprendizagem e experiência enquanto músico e ser pensante nunca poderá estar completa. Falo da importância incotornável das sinfonias de Beethoven, de Brahms, de Tchaikovsky, de concertos, poemas sinfónicos, óperas.

Para além disso, tenho na música clássica e romântica algumas figuras de quem sou devoto admirador, sobretudo Schumann. Para além disso, terei as minhas preferências, mas o público nunca precisará de saber que não acho grande interesse aos concertos de Paganini ou às óperas de Bellini. De qualquer forma, se algum dia improvável me passarem pelas mãos, irei sempre abordá-las como se fossem última e a melhor de todas as obras-primas.

À conversa com Anabela Mota Ribeiro, falando, entre outras coisas, da minha devoção por Schumann

Terceiro concerto do programa inaugural da OSF: Sinfonias nº1 e nº4 de Beethoven

Badajoz, março de 2019