​Música

Ao longo da minha muitíssimo jovem carreira, tenho tido uma sorte dupla: por um lado, tem-me sido dado a escolher o repertório que desejo tocar, também fruto de as minhas oportunidades serem criadas por mim próprio. Por outro, tenho passado as mãos por repertório que vai do século XVII ao século XXI. 

A vantagem da primeira destas sortes é poder dirigir-me para onde quero, não no sentido de cumprir desejos de criança (embora também seja disso culpado), mas no sentido de pensar programas coerentes e estruturados, com um discurso e em que as obras estão em diálogo umas com as outras.

Qualquer músico pode confirmar que construir programas é das partes mais deliciosas da profissão.

O segundo factor de sorte tem que ver com a variedade daquilo que tem sido a minha dieta, que felizmente tem sido omnívora e tem-me mantido longe de cair no campo da especialização. 

Tudo na música clássica são categorias de especialidade, e quanto mais tempo conseguir manter-me à margem deste sistema, tanto melhor.

Um especialista em Verdi nunca será chamado para dirigir uma cantata de Bach, nem o especialista em John Cage terá facilidade em deitar mãos a uma sinfonia de Mendelssohn.

Concerto omnívoro em São Petersburgo: Mendelssohn, Shostakovich, Stravinsky, Wagner e Haydn, julho de 2018

Em 2018, almoçando entre ensaios, perguntei ao Christopher Rountree se ele não estava cansado de programas sempre aventureiros, ousados, inauditos e experimentais. Com o Wild Up, faz alguma da programação mais corajosa e excitante de que tenho conhecimento. A resposta, tão sentida quanto possível, foi:

- Kidding me? I am dying to get my hands on those Brahms symphonies!

O Chris deve estar a passar a barreira dos quarenta anos, e já se encontra pidgeonholed. Desde este momento, tenho sempre olhado para os directores musicais observando a medida da liberdade de programação que conseguem manter, e com base nisso julgo o seu real sucesso.

Na semana seguinte fiz ao Alan Pierson a mesma pergunta e a resposta foi que a única música que lhe interessa é aquela a que já se dedica. Que sortudo. O meu problema é que toda a música me interessa!

No fundo, existem três grandes compartimentos na música orquestral: 

Em primeiro, a música antiga (que parte desde a música vocal e instrumental do século XVI e pode esticar-se até ao advento de Beethoven); Depois, a música central do nosso repertório, que provavelmente significa uns 70% de toda a música clássica que se ouve e que vai de Mozart e Haydn até à geração de Strauss e Sibelius. Por último, temos a música moderna que faz a ponte para a música contemporânea. Por motivos que não vou aqui discutir, ainda chamamos música contemporânea a obras escritas há setenta anos.

Em Saratoga Springs com o American Modern Ensemble, junho de 2018

Não queremos com isto dizer que são nossas contemporâneas, mas sim negar-lhes o seu lugar junto do repertório canónico onde na verdade pertencem quer queiramos quer não.

Por acreditar nesta divisão tripartida da música, que não foi pensada por mim, dividi em três sub-grupos a minha actividade enquanto músico e intérprete.

​Não pretendo criar um arquivo de metas que já atingi, até porque foram ainda muito poucas, mas sim discorrer livremente sobre o que penso sobre cada um destes capítulos.