2014 - 2017

O que ouvir na música clássica

A Cidade na Ponta dos Dedos, programa de Sancha Trindade, Março de 2015.

Em 2014 realizei em Tomar pela primeira vez um curso de “apreciação musical”, incluído num programa multidisciplinar, em que me lembro que antes de mim houvera um curso dedicado à leitura e interpretação do Ulysses de Joyce.

Esse momento de contacto com um público interessado em saber mais e à procura de respostas e pistas foi uma espécie de epifania e comecei desde então a realizar estes cursos com maior regularidade, entre Lisboa (Palácio Pombal e Fábrica do Braço de Prata) e Cascais (Centro Cultural de Cascais), chamando-lhes “O que ouvir na música clássica”.

Curso no Centro Cultural de Cascais, Fevereiro de 2016

Estes eventos eram uma espécie de one-man-show, em que apenas faltava um concerto a complementar. Se eu fosse pianista, certamente teria sido esse o plano, mas não sendo, limitava-me a alternar entre exemplos tocados por mim e exemplos de áudio e vídeo que ilustrassem os meus pontos de vista sobre o tema de que estivesse a falar.

O mais importante destes cursos é que eram tentativas de, no arco de um dia, fornecer as ferramentas principais para interpretar a música, ao mesmo tempo que se afastavam da própria música para se servirem de todas as outras áreas da cultura e do pensamento, e sendo sempre apresentado de forma ligeira, espontânea e agradável.

Assim mesmo: uma tarefa titânica, servida como se fosse a coisa mais fácil de fazer. E a verdade é que vieram sempre dezenas de pessoas, cada vez mais e repetentes, dispostas a passar um sábado a ouvir música, tocada, falada, discutida e aprendida.

 Grupo do último curso na Fábrica do Braço de Prata, Lisboa, setembro de 2016

Vivendo em Itália entre 2012 e 2016, voava de Milão para Lisboa ao fim de semana e voltava a tempo de estar nas aulas na segunda-feira de manhã.

A maior e mais importante conclusão a que cheguei durante a experiência destes cursos foi que um músico não pode virar as costas à missão de comunicar a sua arte e fazer a ponte com o público. Se isto é válido para todas as artes, mais urgente ainda se torna quando falamos de música clássica, que sofre com a falta de crescimento sustentado, baseado na renovação geracional. 

 

A música clássica não é uma arte velha, mas o seu público sim, e cada vez mais. 

Tal como é urgente encontrar alternativas para o plástico, comer menos carne e eleger políticos em cuja agenda estejam as questões do planeta, também urge, no campo cultural, reverter o processo de desaparecimento da música clássica e da sua substituição por fenómenos de massa que apenas contribuem para a desertificação intelectual das pessoas.

 

Hoje, entendo a minha posição como a de alguém que segue uma paixão, a direcção de orquestra, mas que cumpre uma missão, que é a comunicação. As duas estão interligadas, e por isso, após o curso de Junho de 2017, decidi parar para me reorganizar e repensar o meu modelo, de forma a torná-lo mais fecundo ainda.

Programa do Observador LAB, julho de 2017